
Fortaleza e Quente
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Mergulhada na efervescência noturna e nos excessos entre Cabo Verde e Fortaleza, Kathya entrega-se a desejos e vontades. O prazer de chegar em casa tarde, com passos embriagados, a revela que a capital cearense é, afinal, mais quente do que imaginava.
Por Clara Klink, Grasieler Martins e Isabella Pascoal



CRONICA TRANSCRITA
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[O som das ondas do mar se encontra com as melodias da cordas de Cabo-Verde.]
[Um estrondo.]
[A melodia volta.]
Kathya: Antes, a noite era só um aviso: “volta antes das nove, viu?” Não era um conselho. Era um limite. Antes, eu saía desde cedo com a minha irmã, mas não gostava. Havia sempre alguém olhando, alguém contando o tempo, alguém esperando que eu fosse de um jeito específico — mais contida, mais discreta, mais previsível.
[ O mar retorna. ]
Kathya: Eu gostava mesmo era de sair com as primas, com as vizinhas, sentar num canto qualquer e assistir aos jogos dos crushs.
[Uma música eletrônica aparece ao fundo do áudio]
Kathya: Aí fiz dezenove anos e atravessei o oceano sozinha.
Vim para Fortaleza porque ouvi dizer que era uma cidade universitária e logo imaginei luzes acesas até tarde.
[A trilha sonora muda para o som do sanjon batucado.]
Kathya: A primeira calourada foi um impacto físico. Fortaleza é quente.
O calor verdadeiro estava nos corpos, no excesso, na falta de cerimônia. Beijo demais. Mão demais. Gente demais se pegando sem precisar explicar nada para ninguém.
Noventa por cento das pessoas estavam se pegando e eu lembro de pensar, sem filtro nenhum: eu não teria coragem. Mas tive.
A noite de Fortaleza tem um feitiço. Ela entra na gente de forma sorrateira. O grave que faz o peito vibrar. As risadas que começam do nada e terminam em amizade.
[Risos.]
Kathya: Ou num canto escuro.
Em Cabo Verde, minha experiência era outra.
O afeto era contido e quase protocolar. Às vezes, andar de mãos dadas, um selinho rápido ao se despedir. Aqui, o afeto escorre.
Literalmente.
[O batuque ganha destaque.]
Kathya: Lembro das festas em Cabo Verde. Ia com 20 reais e voltava com o troco. Os homens pagavam a entrada, as bebidas, tudo. E sem pedir nada em troca. Eles chegavam a competir para ver quem esbanjava mais dinheiro com mulheres. Eu, particularmente, achava aquilo uma bobagem. Mas não me queixava.
No meio da pista, o suor escorre e eu sinto esse cansaço bom.bEstar de ressaca na sexta-feira não é mau presságio. É um troféu.
Uma curiosidade: Fortaleza não respeita calendário. A cidade não para. Segunda tem festa. Terça também. Quarta, com certeza. Quinta já é sexta emocionalmente.
Ainda adolescente em Cabo Verde, eu queria pecar mais. Mas me restringia nessa ilha pequena em que todos se conhecem. Aqui, eu me permitia errar sem medo de alguém contar para minha mãe.
Eu me sinto viva. Cada amanhecer traz um limite novo que eu descubro que não existia. Quando saio de uma festa e um dia já ameaça nascer,
eu sinto que o oceano liga tudo.
Uma costa na outra. Cabo Verde e Fortaleza conectadas por água salgada e insônia. E eu sei, sem romantizar e sem exagero, que esses são os melhores anos da minha vida.
[O mar volta. Os batuques cabo-verdianos entoam.]
Créditos
Produção: Grasieler Martins e Xaio Mar Lopes
Roteiro: Isabella Pascoal e Clara Klink
Narração: Grasieler Martins
Edição: Grasieler Martins