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Temperos calientes e massas inovadoras

O trabalho apresenta a gastronomia como espaço de memória, afeto e recomeço a partir da trajetória de Estefany Medrano e Moisés Lobo, imigrantes venezuelanos em Fortaleza. A crônica narra a criação do Senhor Tequeño, único food truck de comida típica venezuelana da capital cearense, destacando o percurso migratório do casal, os desafios da validação profissional no Brasil e a transformação de receitas caseiras em fonte de renda. Por meio da descrição dos pratos, dos ingredientes e do cotidiano do empreendimento, o texto evidencia como a culinária venezuelana se reinventa no Brasil, mantendo tradições, adaptando sabores e afirmando identidades.

 

Por Arthur Paz, Clarisse Barbosa e Milenna Murta

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Textura de aquarela azul

CRONICA TRANSCRITA

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Gastronomia, ainda que por si só, é uma maneira de recomeçar. Porém, quando a culinária tem cheiro de casa, é sinônimo de memória e cuidado.

A brisa que passa pela cidade de Maracaibo, na Venezuela, é a mesma que chega à Regional 10 de Fortaleza. Essa, por sua vez, é levada um pouco mais à frente, até pousar na décima segunda região da capital cearense.

O percurso não é feito à toa. Por linhas menos burocráticas, esse é o caminho que Estefany Medrano fez pelos últimos noves anos para recomeçar em um novo município, um novo estado e, principalmente, um novo país.

O resultado dessa trajetória tem nome e sobrenome. Apresento-lhes, Senhor Tequeño: o único food truck de comida venezuelana da cidade de Fortaleza.

As faixas nas cores vermelha, azul e amarela são agitadas pela leve ventania que sobrepassa o Imprensa Food Square, polo gastronômico do Dionísio Torres. Com oito estrelas brancas ao centro, a bandeira fica erguida em cima do pequeno estabelecimento, marcando presença junto ao letreiro neon que diz “Venezuelan Food”.

Acompanhando o pôr do sol e o final de expediente diurno, é sob os cuidados de Estefany e seu esposo, Moisés Lobo, que as luzes do ambiente são acesas para receber a primeira clientela do dia.

No cardápio, cumpre-se o prometido pelo visual do food truck. São os tequeños, as arepas e, especialmente, os patacones que atraem o apetite da vida alencarina ao local. 

Por ali, não há versão brasileira à la Herbert Richers. Pelo contrário, até o jeitinho do Brasil ganha uma adaptação aos moldes venezuelanos, como o famoso perro caliente.

Traduzido de maneira literal, o cachorro quente do Senhor Tequeño não tem batata palha ou acompanhamento de almoço. A começar pelo pão quentinho e a salsicha frita, o toque vem com sabor de queijo na chapa, molhos especiais e parmesão ralado.

É o primeiro sinal ao cliente de que os proprietários não brincam com a seriedade dos alimentos. De Maceió, são encomendadas as bananas da terra, responsáveis pelo prato mais famoso do restaurante: os patacones. Ao invés de pão ou massa, é a forma frita da banana que monta o sanduíche agridoce.

Já de São Paulo, chegam os lotes de Harina Pan, a farinha típica da Venezuela que dá vida às arepas. Elas nada mais são senão sanduíches de farinha de milho, crocantes por fora e macios por dentro. 

E, claro, elas são fritas.

Afinal, como a própria Estefany explica, o prato só pode ser assado ou na chapa caso seja feito dentro de casa. Se for comida de rua, como em food trucks, é tradição que o sanduíche seja frito.

A alma brasileira só existe nas verduras, já que a proprietária explica ter substituído o clássico repolho por tomate e alface, buscando se adaptar ao paladar do país. Na Venezuela, essas saladas somente são usadas para pratos de almoço.

As delícias do país não se espalham apenas pelos arredores do Dionísio Torres. A unidade original do food truck, na verdade, está na Maraponga. É lá onde, há nove anos, nasceu o empreendimento do casal venezuelano.

Imigrantes insatisfeitos com o governo do país, eles não conseguiram emprego em Fortaleza em suas áreas de formação. Uma comunicadora social e um engenheiro de petróleo – ambos com os diplomas considerados inválidos dentro de território brasileiro.

Foi com essa frustração que receitas caseiras viraram fonte de renda para Estefany e Moisés. Dentro das unidades do Senhor Tequeño, eles já precisaram ouvir de tudo, até mesmo especulações sobre as carnes serem de cachorro, graças a discursos sensacionalistas sobre a Venezuela que começaram a circular pela Internet.

Ainda assim, o negócio cresceu até o Dionísio Torres. Estefany, entretanto, projeta maiores expansões e novas unidades. Há quase uma década de funcionamento, seu negócio ainda é o único de comida típica venezuelana em Fortaleza.

A esperança é que suas arepas, patacones e até perros calientes sejam conhecidos por mais bairros da cidade. Porém, por enquanto, Maraponga e Dionísio Torres são os únicos lares oficiais do Senhor Tequeño, abertos das terças aos domingos, das 18 às 23 horas.

Um pedacinho da gastronomia venezuelana dentro do coração cearense.

Esta crônica é um produto para a disciplina de Laboratório de Jornalismo 1, ministrada pela professora Rosane Nunes, do curso de Jornalismo da Universidade Federal do Ceará (UFC).

Créditos:

Produção: Arthur Paz e Milenna Murta

Roteiro: Milenna Murta

Narração: Arthur Paz

Edição: Clarisse Barbosa

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Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo I do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: profa. Rosane Nunes | Semestre 2025.2

Curso de Jornalismo da UFC

​Avenida da Universidade, 2762, Benfica, Fortaleza - Ceará CEP 60020-180​E-mail: coordenacaojornalismo@ufc.br

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