
Entre o mandarim e o portugues, a vida que se constroi no meio
'
Filho de imigrantes chineses, Alexandre Lai cresceu entre dois universos e fez dessa travessia sua vocação profissional
Por Camila Maia e Ruan Rodrigues
v

“Meus pais tinham uma dificuldade em aprender o português”, relembra Alexandre Lai ao explicar o que o levou a escolher, não uma, mas ao menos três profissões dedicadas a desmontar barreiras linguísticas e culturais entre China e Brasil. Ao longo da carreira, Alexandre transformou sua trajetória em uma ponte entre os dois países. Seja na advocacia, na sala de aula ou nas traduções, sua missão é decodificar aquilo que, para muitos, parece um emaranhado de símbolos e sons.
Advogado especializado em imigração, professor no Instituto Confúcio da Universidade Federal do Ceará (UFC) e tradutor juramentado na Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec), Alexandre dedica seu trabalho a fazer o mandarim chegar ao português e o português alcançar o mandarim.
A determinação de conhecer a legislação brasileira nasceu quando Alexandre observou os entraves que seus pais enfrentaram ao migrar para o Brasil no início dos anos 1980, em um movimento impulsionado pela atratividade comercial do período. Filho de imigrantes chineses, ele veio ao mundo em Foz do Iguaçu, mas ainda na infância mudou-se para sua cidade-lar atual: Fortaleza.




Ao longo de quase 50 anos vivendo no Brasil, o casal chinês transitou pela importação e exportação, atuou no varejo e, mais tarde, abriu o restaurante Pequim, no Centro da capital ensolarada. O estabelecimento completou duas décadas antes de encerrar as atividades durante a pandemia de Covid-19. Foi uma trajetória de sucesso, mas que, desde o início, exigiu do casal o esforço de traduzir seu idioma tonal para a acentuada língua portuguesa.
“Tendo alguém que possa assessorá-los, principalmente com regras que não eram comuns lá, mas que eram aplicadas aqui, era uma boa forma de fazer essa ponte entre as culturas”, justifica ao lembrar da escolha pelo curso de Direito na Universidade Federal do Ceará, ainda em 2010. O advogado começou pelo familiar: atuando em casos de amigos e de outras pessoas da comunidade chinesa. Logo expandiu os horizontes para outras nacionalidades. “Temos clientes da América do Norte, da Europa, até de outros países da América do Sul”, ressalta, reforçando o atendimento no escritório particular Rodrigo Albuquerque – onde estagiou e para onde retornou em 2022 –, o qual não se restringe a um único público.
Professor de Mandarim do Instituto Confúcio, Alexandre Lai, detalha sua trajetória pessoal e como ele utiliza sua experiência como falante de duas línguas para facilitar o intercâmbio cultural e linguístico. (Foto: Lyssa Santos)

Ao lidar com processos de documentação, júris e homologações, o jovem advogado percebeu o quanto a legislação migratória mudou desde que recebeu sua carteira da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB). Da ditadura militar até 2017, vigorou o Estatuto do Estrangeiro, marco legal o qual tratava o estrangeiro “como uma pessoa hostil, uma pessoa suspeita”, nas palavras de Alexandre.
Com a Lei de Migração (Lei nº 13.445), o olhar se desloca da lógica estritamente securitária para princípios de direitos humanos. “Agregador e receptivo”, descreve o advogado sobre o novo regimento. Com cautela, talvez fruto da própria história dos pais, Alexandre percorre a singularidade de cada caso, de cada ação e de cada família que busca criar raízes em outras terras.




"ELE TRANSITA BEM ENTRE OS DOIS MUNDOS"
Nos quase 40 anos vivendo no Brasil, sem abrir mão da cultura ancestral chinesa, Alexandre reconhece a receptividade do país: “o choque cultural é natural, só que o Brasil sempre se mostrou muito acolhedor”.
De forma recíproca, transforma o domínio do mandarim cultivado desde a infância em ponte para os alunos, majoritariamente brasileiros, que desejam adentrar as nuances do idioma. Professor no Instituto Confúcio, fruto de uma cooperação entre a Universidade Federal do Ceará e a Universidade de Nankai (Tianjin, China), Alexandre se aproximou da instituição ainda em 2018, movido pela curiosidade e pelo sentimento de pertencimento com a chegada do equipamento. Foi durante a pandemia de 2020, com a alta na demanda, que passou a integrar oficialmente o corpo docente da Casa.
“Justamente por ser brasileiro, o professor local, como falante da própria língua, sabe das dores comuns a quem tenta aprender o idioma. Ele transita bem entre os dois mundos e consegue ajudar os alunos a superar essas dificuldades”, reflete sobre as lacunas no processo de aprendizagem.
O Instituto Confúcio é, para ele, uma das engrenagens de fortalecimento das relações entre Brasil e China. Os estudantes não se restringem a ler, escrever e falar mandarim, mas também são expostos a hábitos culturais, culinária, artes manuais e relações interpessoais com integrantes da comunidade chinesa.
Com a atenção cuidadosa típica de quem ensina, ele explica, ponto a ponto, que, “sendo a China a maior parceira econômica do Brasil, é de suma importância que os alunos estejam mais alinhados com a cultura, para entender a economia e atender as necessidades que advêm dessa relação”.
Alexandre também identifica um movimento complementar nesse fluxo cultural. A literatura brasileira ganha novos leitores e elementos da cultura nacional passam a circular com mais frequência. Aos poucos, o olhar chinês se amplia para além do samba, do futebol e dos produtos agropecuários enviados ao país. “Desperta-se uma curiosidade dos chineses para conhecer o Brasil e nada melhor do que essas pontes estabelecidas”, atenua.
Para além de seu trabalho no instituto de idiomas, o descendente de chineses soma ainda outra frente que o insere diretamente nas relações intercontinentais como tradutor juramentado da Junta Comercial do Estado do Ceará (Jucec). Já integrou equipes oficiais em eventos no Estado da Bahia, exercendo a função de tradutor em ocasiões que reuniram figuras como o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o vice Geraldo Alckmin e o governador baiano Jerônimo Rodrigues, especialmente nas tratativas envolvendo a BYD, empresa chinesa de tecnologia e de automóveis.
Ao recordar essas experiências, Alexandre deixa transparecer o orgulho. Fala sorrindo do avanço das marcas-símbolo chinesas no cotidiano brasileiro. “Para um chinês, é um orgulho ver uma marca do seu país como a BYD. E não só a BYD, mas outras marcas automobilísticas, de informática ou mesmo de serviços que, outrora, você só enxergava na China e agora passam a fazer parte da vida das pessoas aqui. É motivo de orgulho”.




O MANDARIM NUNCA SAIU DE CENA E A ANCESTRALIDADE O GUIOU
Esse orgulho que hoje ele expressa não nasce apenas da presença cada vez maior da China no cotidiano brasileiro, mas de uma convivência íntima e contínua com sua origem. O mandarim sempre circulou naturalmente pela casa, a ponto de se confundir com o próprio ritmo familiar. Antes de compreender a força econômica do país natal de seus pais, Alexandre já vivia uma, ligação profunda com a ancestralidade que o formou.
Após uma viagem ao litoral cearense, o casal se encantara com Fortaleza e decidiram transformar a capital em seu lar definitivo. A mudança representou o início de um capítulo que uniria a cultura chinesa ao calor do Nordeste brasileiro.
Instalados na Terra do Sol, os pais de Alexandre construíram não apenas uma nova vida, mas também um vínculo afetivo com a cidade. Após alguns anos, decidiram investir em uma área diferente do comércio original e abriram um restaurante no Centro, levando parte da tradição chinesa ao coração da capital. O nome escolhido, Pequim, era mais do que uma lembrança afetiva do país de origem. Era também um modo de permanecer conectado ao lugar de onde vieram, mesmo estando tão longe fisicamente.
Dentro de casa, porém, o desafio era outro. Além de se adaptar à vida em Fortaleza, os pais tinham como compromisso preservar, para os filhos, a herança cultural que carregavam. Assim, Alexandre cresceu atendendo por seu nome chinês, 赖逸哲, pronunciado “Lai Yizhe”, e convivendo com hábitos que mantinham vivas tradições transmitidas pela família. O mandarim era o idioma predominante no lar, reforçado pela dificuldade dos pais em aprender rapidamente o português e pela intenção consciente de ensinar às crianças a língua de origem. Entre as lembranças que o fazem sorrir, estão as horas passadas fazendo exercícios de leitura e escrita, sempre sob a supervisão rigorosa, mas carinhosa, dos pais.
No cotidiano doméstico, costumes chineses também se mantinham íntegros. O uso de kuaizi, os tradicionais palitinhos para se alimentar, era uma regra. As tigelas de arroz, as receitas adaptadas com ingredientes brasileiros e o cuidado com a forma de cozinhar eram elementos presentes no dia a dia. Para Alexandre, a adaptação aos talheres ocidentais acontecia apenas fora de casa, enquanto nas refeições em família, a tradição era preservada. O professor reforça que, ainda hoje, comer com kuaizi é um hábito natural da sua família.
Entre tantas memórias, uma se destaca com um brilho no olhar intenso: lembrando da infância, ele fala dos desenhos animados dublados em mandarim. Enquanto os colegas brasileiros acompanhavam os sucessos da Disney na programação televisiva, ele os assistia com vozes chinesas e com nomes diferentes dos personagens conhecidos pelos outros.
“Quando eu era criança a gente assistia aos filmes, em fita cassete da Disney, e a dublagem era chinesa. Então, quando eu conversava com os meus amigos da escola, os nomes que eu sabia eram em chinês e os nomes que eles sabiam eram em português. Então, não batia muito bem. Tinha alguma coisa que eu começava a estranhar. Nossa, por que não está conseguindo ter essa convergência?”.
Essa divergência, que na época o fazia perceber a distância entre seus dois mundos, hoje se apresenta como uma memória doce e carregada de simbolismo sobre sua dupla identidade cultural.
Crescer em Fortaleza sendo descendente de chineses significou também viver entre curiosidades constantes. Alexandre recorda que, desde pequeno, era comum ouvir a pergunta sobre sua origem. No início, a maior parte das pessoas acreditava que ele era japonês, já que os imigrantes do Japão formaram historicamente o maior grupo asiático no Brasil. Com o avanço da cultura pop coreana e chinesa, as possibilidades aumentaram e, segundo ele, hoje a chance de alguém acertar sua descendência é bem maior. Ainda assim, o estranhamento inicial diante do fenótipo asiático permanece presente no cotidiano, entre olhares curiosos e perguntas recorrentes que, ao longo dos anos, passaram a fazer parte da sua rotina.
“O povo oriental sempre foi encarado como um povo bastante batalhador, trabalhador, honesto. Então, de certa forma, essas coisas contribuíram para serem bem acolhidos aqui no Brasil. E aqui no Ceará as pessoas são bastante curiosas, simpáticas, querem saber de onde você vem. E é interessante notar uma mudança de paradigma, porque quando eu era criança as pessoas perguntavam se eu era japonês. E depois de dez anos para cá começou a mudar. As pessoas começaram a perguntar se eu era coreano ou chinês. Então você consegue perceber essas mudanças em como as pessoas se posicionam para uma pessoa com fisionomia asiática”.
Hoje, quando olha para trás, Alexandre percebe que sua história é também a de muitos filhos de imigrantes: a busca por pertencimento, os contrastes culturais, o esforço dos pais para manter tradições vivas e a vontade de construir caminhos próprios. Sentado na biblioteca, ele expressa tudo isso com calma, sempre sorrindo, como quem entende que sua trajetória é feita de encontros entre línguas, sabores, rotinas e afetos. Uma história que não pertence apenas a um lugar, mas que se deixa narrar entre as margens do Brasil e da China.