
Torcida e torcida
Por Wendel Souza
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Queria Jorge ter ficado mais. Aqueles 90 minutos naquele castelo não pareciam suficientes para quem estava deslumbrado. Um choro de acréscimo ainda foi o que deu para aproveitar. Mas afinal, quem foi mesmo que inventou essas regras? O futebol precisa desse limite?
…deixa pra lá.
Em campo, o maestro que apitou o fim do espetáculo foi o mesmo responsável por reger o início de um coro. Ora, não era pra menos. Mais de 55 mil comemoravam aquilo que parecia magia. Mais uma vitória. Mais um show. Mais um passo para o título.
Nas arquibancadas, o grito ecoou. Ninguém respondia por si. Cada um festejou da sua maneira. De um lado, a senhora que chorava com as mãos na cabeça. Do outro, três pessoas que pareciam ser da mesma família se abraçaram em êxtase. Mais a frente de Jorge, um homem com um bebê de colo vibrava mais contido. E sobrou até para o ambulante, que teve quatro copos de cerveja e alguns sacos de pipoca derrubados. Num misto de emoções, só aceitou e entrou na onda.
Futebol é isso.
Naquela altura, não eram só mais três pontos. Era, para ele, o início de uma história que teve o prazer de acompanhar e hoje ajuda a contar.




No meio da multidão estava Jorge, um argentino que respira futebol. Não daqueles que sabem de cor a escalação de 86 da campeã do mundo. Muito menos quem estava em campo no bicampeonato consecutivo da Copa América nos anos 1990. “Era Maradona mais 10”. O que cultiva é a cultura do estádio. Torcedor ferrenho do “é dia de jogo”. Fã do pré, durante e pós-espetáculo.
Assim como de cara amou o esporte, também amou o Brasil. E assim, veio parar no Ceará. E, talvez, não por acaso.
Nascido em Córdoba, segunda cidade mais populosa da Argentina, o hermano respirava cultura e futebol. Ao lado do pai, referência quando se falava de esporte e um daqueles fãs típicos de história, sempre fazia uma “rota semanal sagrada”.
Era de lei.
A segunda não começaria de fato sem a visita à Iglesia de Los Capucinos. Lá, as anedotas contadas eram as mesmas, mas sempre ouvidas como se fossem inéditas.
“sabia que esse prédio é um patrimônio arquitetônico tombado, carrega um peso histórico belíssimo hijo…”
A próxima parada era a Plaza San Martín, onde Jorge nunca deixou de pedir a iguaria favorita: a tal da raspadinha de doce de leite. Para ele, uma obra de arte gastronômica. Já o pai, achava o inimigo da sua diabete.
Enfim…
Mas o que fazia o pequeno argentino se conectar com o pai era aquela “seleção” do Talleres. O time era modesto, mas trazia consigo algum traço de espírito esportivo. Clichê válido.
A casa de Los Matadores nem se fala. O estádio é o Mario Alberto Kempes, com capacidade para 57 mil cabeças (ou 4% da população da província cordobesa, como brincava Jorge; para ele, todos eram Talleres). O nome remete ao célebre centroavante da Argentina, campeão do mundo com o timaço de 78.
E nesse templo aconteceu o batizado do argentino…



Nada melhor para a estreia de Jorge no templo “Kempiano” do que aquela final de Copa Conmebol de 1999. O elenco era comandado por Gareca, grande atacante argentino que teve seus momentos de glória no Boca Juniors e no Vélez Sarsfield.
Mas a grife não amedrontou o adversário naquela primeira decisão. Aguilar e Astudillo tentaram, mas o rival era enjoado. No fim, um desastre. Derrota por 4 a 2 no jogo da ida.
A volta teria de reservar uma apoteose. Não teriam escolhas. Desistir não era o verbete que tinha no dicionário daquela equipe. Jorge sentia. 86 anos de história, amigos.
Não tinha segredo. 3 a 0 era o que restava para reverter o que foi escrito na primeira perna. Seria aquela onzena capaz?
O relógio marcava ligeiros 75 minutos quando Gigena fez apenas o segundo tento necessário naquela partida. Porém, faltava mais. O que se deu a partir dali, foi o que Jorge sentiria pela primeira vez como sendo os sintomas da “síndrome do fim de jogo”. Apreensão, ansiedade, frio na espinha, suor. A medicina deve explicar, ou talvez não.
Chegou o temido.
O apiteiro olha para o pulso. O cronômetro já batia 89. Como pode? Aquele 8 de dezembro passava rápido demais. A palma da mão foi erguida em direção à beira do campo. Mais 5 era o limite.
Mal sabiam os presentes o que aqueles próximos instantes reservavam. Na beirada dos acréscimos, falta marcada na quina da grande área. Silva na bola. Já tinha marcado o primeiro e era o mais confiante em campo. Não deu em outra. Pelota na cabeça do xerife é caixa. Maidana com a 2 no peito fez o gol mais importante da ainda curta história de torcedor de Jorge. 3 a 0 e delírio.
Campeonato mais importante da história do Talleres até hoje.
Aquele final, inclusive, foi o primeiro contato de Jorge com o Brasil. O rival era o Centro Sportivo Alagoano (CSA), clube tradicional de Alagoas, no Nordeste tupiniquim.
Em Córdoba, apesar da derrota, os brasileiros não fizeram feio. A torcida fez barulho do primeiro instante ao decreto final.
Afinal, em qualquer lugar do mundo, torcida é torcida.


Num estádio argentino, a entrada de um time em campo vira cerimônia. Bandeirões se desenrolam nas arquibancadas como tapetes sagrados. Sinalizadores tomam conta do ar. As vozes se alinham em liturgia. A ideia de pertencimento não é simbólica, é vivida. É identidade.
A estética toma um ar de superioridade. Uma faixa rasgada nunca falta. Aquele torcedor mais ousado sempre escalando uma grade. Nos telões, os torcedores-símbolos são focados, como um sinal de boa sorte ao espetáculo.
A torcida não é mera coadjuvante, também vira jogador. O ritmo das arquibancadas marca o compasso de uma partida. O drama vira linguagem. “É bonito sofrer”, escutava Jorge.
Em dias de jogos, a cidade muda. Os bairros respiram expectativa. A cada esquina uma buzina estridente com uma frequência que mexe com qualquer um. Camisas de time superfaturadas expostas em cada vitrine. E por aí vai.
Ainda assim, não se faria desfeita com o Brasil.
Hoje Jorge vive no Ceará. Teve a oportunidade de conhecer o “novo”. A pousada em terras alencarinas se difere da terra natal. Por aqui quem reina é o sol, quem beira é o mar e quem acolhe é o tal do receptivo cearense.
As diferenças culturais não são poucas, mas esporte com 11 de cada lado ainda obedece às mesmas regras.
É bem verdade que por aqui a rivalidade é outra. Se lá Talleres e Belgrano fazem guerra, mal sabem o clima de um Fortaleza e Ceará. Tricolores contra alvinegros. Não importa o momento de cada um. Todo jogo é uma final. Aos vencedores, o triunfo simboliza um título. Aos perdedores, a derrota é crise na certa.
O templo também é outro. O templo tem nome de campo de batalha. Arena Castelão. Construído em 1973, o estádio também tem vida. Presenciou lotações históricas em decisões marcantes. Foi num jogo da seleção brasileira que viu seu recorde. Mais de 118 mil viram Getúlio marcar o gol da vitória da Canarinho contra o Uruguai em 1980.
Mas apesar de cearense, o gigante fala a língua universal do futebol. E Jorge ouvira falar dos seus que andaram por aqui. Não foram muitos argentinos, mas alguns deixaram sua marca. Se pelo lado tricolor, o defensor Emanuel Brítez ficou conhecido pela sua liderança e raça em campo, os alvinegros não deixam barato ao lembrar da técnica do meio campista Lucas Mugni, que tem sua marca em Porangabuçu.
Aqui Jorge é isento, não agrada gregos nem troianos. Anda com a camisa dos dois. Em dia de jogo, lembra de casa. É como vivenciar um pedaço de Córdoba nas avenidas de Fortaleza. E ainda assim entende que tudo é meio igual.
A torcida é a mesma que depende de tudo. Depende do minuto do jogo, depende do juiz, depende do zagueiro que tenta fazer o impossível, depende do ombro amigo quando o time toma um gol no último minuto. “Sofrimento e alegria andam lado a lado”, já diziam.
No Castelão, o argentino entendeu que estádio também é casa e que torcer não é mais questão de fé do que de geografia. Barulho de arquibancada pode ser diferente, mas transmite o mesmo sinal.
E ao final de cada jogo, em qualquer canto do planeta, entendemos que torcer é um gesto que dispensa tradução. Porque no final das contas, seja em Córdoba ou em Fortaleza, torcida é torcida. E isso basta.
