
Onde estao as
rabidantes de Fortaleza?
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O fenômeno cultural e comercial entre Cabo Verde e Ceará passou por mudanças drásticas, mas ainda existe
Por Clara Klink, Grasieler Martins e Xaio Mar

Suzana Monteiro vai à cidade da Praia, capital de Cabo Verde, e adentra o Mercado de Sucupira. Questiona as vendedoras sobre o que elas vão querer comprar e, de noite, parte para Fortaleza, capital do Ceará, em um trajeto de 24 horas de Cabo Verde para Brasil. Planejada há meses, o objetivo da viagem era tentar suprimir o que Suzana e as demais rabidantes faziam com frequência: comprar peças de vestuário nas feiras da cidade.
As rabidantes, mulheres comerciantes informais de Cabo Verde, já tiveram uma forte relação comercial e cultural com o Brasil. Popularmente, eram vistas, aos olhos dos feirantes de Fortaleza, como “sacoleiras internacionais”.
Compravam produtos na feira, como roupas, acessórios, brinquedos e eletrônicos, para revendê-los diretamente em Cabo Verde. Um comércio informal de caráter transatlântico entre o arquipélago africano e o país latino-americano.




A primeira relação direta entre as rabitantes de Cabo Verde e o Brasil se deu em 2001. A Cabo Verde Airlines, antes conhecida como Transportes Aéreos de Cabo Verde, anunciou a primeira rota aérea direta entre Praia e Fortaleza.
Com o trajeto estimado de três horas entre os dois países, os custos da passagem de ida e de volta custavam, em média, entre 300 e 500 dólares.
Antonio Walter Muniz, pós-doutor em Relações Internacionais pela Universidade Nacional de Brasília, acompanhou o processo de efetivação comercial entre Ceará e Cabo Verde.
Segundo Walter, em 2002, o saldo comercial entre os dois era de 139.551 dólares. Já em 2003 o valor exportado chegou a US$ 568.435 e, em 2004, saltou para US$ 3.121.927. Em 2008, ano ápice da balança comercial, o valor atingido foi de 10.560.336 dólares, tudo na categoria free on board.

Free On BoardO frete FOB, Free On Board ou “livre a bordo”, é uma modalidade de envio no comércio internacional onde o comprador assume todos os custos e riscos do transporte a partir do momento em que a mercadoria é embarcada no meio de transporte designado
Quando o frete é FOB, as rabidantes pagam o transporte do produto. Devendo negociar e contratar o serviço de transporte, assumindo os custos e riscos relacionados a partir do momento em que a mercadoria é entregue ao transportador.
Dados gerais retirados pela plataforma Comex Stat do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) / Reprodução: https://comexstat.mdic.gov.br/pt/geral
A presença era tanta que, semanalmente, desembarcavam no Aeroporto Internacional de Fortaleza - Pinto Martins (FOR) cerca de 150 comerciantes cabo-verdianas.
Atualmente, o que estava em auge agora fica nas rasteiras dos comércios em Fortaleza. Não há mais voos diretos entre Brasil e Cabo Verde desde 2020 e mal se é falado onde estão as mulheres que andavam com muitas sacolas, como as rabidantes eram chamadas.
Em meio a um diálogo entre dois países lusófonos, como e onde estão as rabidantes que tanto visitavam a terra da luz?




ESTIAGEM DO "PARAGUAI DELAS"
Pessoas se esgueiram na multidão apressada pelo Centro durante o horário de pico do comércio. Outras, de forma desajeitada ou tensa, tropeçam sob o sol forte de novembro em sua estação seca enquanto arrastam as chinelas. Em meio aos inúmeros estímulos sensoriais dessas ruas, sons múltiplos e pessoas falantes, situa-se também o silêncio e o estranhamento em resposta à indagação: “Você já chegou a vender para as Rabidantes?” O termo é desconhecido. “Sacoleiras”. Quase nada. “Mulheres de Cabo Verde”. A resposta costuma ser “A gente não pergunta esse tipo de coisa”.
Uma das únicas reportagens sobre o tema foi escrita pela jornalista Daniela Pinheiro, intitulada “Paraguai delas”, hoje excluída do site da revista Veja. É abordada a atividade financeira do país insular, percorrido pela Cidade no começo dos anos 2000.
Suas compras eram centradas em ir contra a hegemonia econômica e cultural, buscando fazê-las em pequenas confecções ao fundo dos quintais da periferia, de barracas de feiras e dos comerciantes populares.
A constante vinda delas acabou por impulsionar a profissão de Corretor de Moda em Fortaleza. Estes levavam as cabo-verdianas para as compras. Em troca, recebiam a comissão de 10% de tudo que elas gastavam, mas as recomendavam locais em que pudessem ter maior lucro.
Existia ali um acordo. Neth Leal, presidente do Sindicato dos Corretores de Moda em Fortaleza (Sincom) respondeu com um enxuto “não” às perguntas da equipe de reportagem. Não as conhecem e não há registros dessas mulheres no Sincom ou de corretores que possam tê-las acompanhado
A nomenclatura regional de Cabo Verde é desconhecida em Fortaleza. Assim como elas, embora sejam vistas sempre juntas, “em bando”. Como relata a vendedora Lana Marciel, de uma loja de biquínis localizada abaixo do nível do asfalto do Centro, o Buraco da Gia: “Elas vêm para cá. Vem um monte. Elas só andam em turma. Dificilmente elas andam só. Só andam de três, quatro, cinco…”, ocasionando espanto aos olhos que passam pelo congestionamento humano que essas mulheres geram com suas sacolas cheias de compras.
Mas agora, após o ano de 2020, elas foram se dissipando, conforme o relato de Lana.
Durante as restrições adotadas de não transitar livremente pelas ruas, pelo risco de infecção por COVID-19, as produções chinesas ganharam destaque em meio a circulação do comércio virtual. Chegando a assumir o primeiro lugar como o maior mercado de comércio eletrônico do ano, com uma estimativa de US$672 bilhões em vendas de acordo com a empresa Business Wire. O que equivale a 3,44 trilhões de reais em 2020, utilizando a taxa de câmbio média do ano.
No mesmo ano, a taxa de informalidade, de acordo com a Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílios Contínuas (PNAD Contínua) do IBGE - Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística retrospectiva 2012-2020, em todo o País sofreu uma queda de 2 pontos percentuais.
Não por melhora das condições trabalhistas, e sim pela redução relativa dos trabalhadores informais em comparação com os formais devido às medidas de isolamento social.
Sendo assim, o comércio popular, em sua maioria informal, foi um dos setores que mais foram afetados pelas paralisações, que saía mais barato para as Rabidantes acabou.
Consequentemente, a Cabo Verde Airlines excluiu a rota direta entre Fortaleza e as ilhas do país africano. Restaram os voos com conexão pela TAP Air Portugal, sediada em Lisboa para Fortaleza.
Fabricio Pinto, estudante de medicina veterinária da Universidade Estadual do Ceará (Uece) e cabo-verdiano, demorou 23 horas no aeroporto de Lisboa, gastando 7 mil reais só em passagem de ida.
Com a disparada dos custos logísticos e inviabilidade de manter a rota direta, o que antes era um fluxo proveitoso, desmoronou.
Não era mais proveitoso para elas e nem mesmo para Elder Bezerra. Ele é comerciante de uma loja de produtos de couro, localizada no Mercado Central, no Centro, que vendia em maior quantidade os calçados feitos a partir da fibra da palha buriti, planta nativa da América do Sul.
“Ficou inviável para mim e para elas”, ele conta. “Tem o preço do dólar, que subiu muito. As despesas, os transportes caros demais de aviação”, finaliza.
A estratégia que as Rabidantes tomaram para manter suas movimentações para a revenda indicava a fragilidade da margem de lucro.
Elas encontraram uma forma de resolver a situação. A partir de uma competição saudável, iniciou-se um esquema de economia colaborativa para diminuir não só as passagens, mas as hospedagens também.
“Uma vinha e levava a encomenda da outra ‘para diminuir o hotel’. Entendeu? Uma média de 90 dias de espaço. Vinham duas ou três e compravam para seis ou oito (pessoas).”
A situação resultou de uma combinação de fatores. A crise não se limitou a afetar somente as demandas das mulheres, mas começou a gerar preocupação em Elder.
Era comum que ele recebesse ligações, por vezes com o aviso de “estou indo daqui a uma semana”, de suas consumidoras.
Com a produção totalmente artesanal e os artesãos distantes, o processo de coleta, secagem e tintura da palha era lento. Para cumprir prazos, Elder precisava frequentemente recorrer à contratação de mais pessoas.
Nesses casos, ligava para seus fabricantes e avisava: “Rapaz, contrate gente para fazer essa mercadoria, que ela está vindo daqui a cinco dias. Faça que vou mandar mais um extra para vocês aí”.
O estresse gerado pelo lucro cada vez menor o levou a repensar a viabilidade emocional e financeira do negócio, decidindo que o custo da venda, somado à ansiedade, não compensa.
“Então a mulher lá em casa falou: ‘Não vai se estressar. Não vai adoecer’.Porque o fabricante não é com a gente. Eu sou a parte final, eu e o cliente. Então se a mercadoria não chegar por conta da falta de compromisso…”, Elder não terminou sua frase.
A parceria superou a relação comercial de compra e venda. Bezerra fazia a cortesia de entregar as mercadorias no hotel em que elas se hospedavam.
“No hotel na Beira Mar daqui a seis quilômetros. Eu ia lá no apartamento e deixava. Na casa ou na pousada. Onde estivesse, a gente fazia ajudar. Esse diferencial é o que faz com que tenha criado esse vínculo. Essa consideração. É o que faz até hoje elas virem me procurar. Vai e vem aqui. Chega e só dá um abraço”, relembra.
O cenário delas irem ao seu local era frequente. Não para comprar. Apenas para abraçar e perguntar se estava bem, às vezes perguntando se havia voltado a revender. A resposta continuava sendo não.
O caso das Rabidantes, envolvendo Elder como fornecedor e outros, ilustra em microescala o impacto da crise logística nas atividades econômicas informais e de pequeno circuito.
Esses setores dependem crucialmente de um fluxo aéreo direto e de custos logísticos controlados para a sua sustentabilidade.




O OUTRO LADO DA FEIRA
O cancelamento dos voos diretos entre Fortaleza e Cabo Verde, durante a pandemia, desestruturou uma das pontes aéreas mais importantes para o comércio informal entre o arquipélago e a capital cearense.
A rota, antes operada pela Cabo Verde Airlines, mantinha um fluxo constante de mercadorias, compradores e revendedoras que cruzavam o Atlântico. Cinco anos depois, a ligação jamais foi retomada — e o silêncio deixado por essa ausência ainda ecoa no centro da cidade.
Entrando em contato com a Cabo Verde Airlines, o voo entre os países ainda não possui data de retorno, apenas sinalização positiva para que haja novamente o trajeto.
O próprio silêncio sobre Fortaleza também aparece nas rabidantes. Benvindo Neves, jornalista de Cabo Verde, foi ao Mercado da Sucupira para recolher mais informações sobre o comércio transatlântico.
“Rabidantes ficam ‘com pé atrás’ quando falam da viagem para o Brasil. Já houve casos de envolvimento com tráfico. Até pensam que sou algum policial”, relata Benvindo em uma de suas idas.
O estigma sobre as “sacoleiras” faz com que o comércio não seja de conhecimento público. Ele é filtrado, anônimo e redirecionado aos feirantes dos dois países.
Uma rabidante, que quis relatar em anonimato, disse que a partir do momento que deixou de ter voos diretos, passaram a juntar-se com outras.
Em grupos de três a quatro mulheres, elas compram os produtos do Ceará que são transportados para o estado de São Paulo. Em seguida, os produtos vão para Cabo Verde em contentores, de barco. Porque “quanto maior é a quantidade, menor o custo”.
Sem a conexão direta, as rabidantes tiveram de redesenhar o próprio caminho. O trajeto que antes cabia em poucas horas virou uma coreografia exaustiva de aeroportos, conexões e malas divididas.
Para continuar comprando no Brasil, elas agora encaram um percurso mais longo, mais caro e muito mais incerto, necessitando passar por outras regiões do país antes de chegar a Fortaleza.
A mudança reduziu a frequência das viagens, cortou margens de lucro, aumentou riscos e obrigou muitas delas a negociar cargas com intermediários ou a partilhar mercadorias entre vários viajantes.
A ruptura da ponte aérea também escancarou outra ausência: a falta quase total de dados sobre quem são, quantas são e como atuaram essas mulheres que circularam por Fortaleza em fluxo constante por mais de vinte anos.
No comércio popular do Centro, os vendedores lembram das “cabo-verdianas que compravam muito”, mas não sabem dizer quantas viajavam, quando deixaram de vir ou qual o impacto econômico que desapareceram junto com elas.
A falta de memória institucional e estatística torna quase impossível recompor a dimensão real desse fenômeno, que sempre existiu à margem dos sistemas formais de comércio, sustentado por redes informais, contatos telefônicos, confiança e circulação contínua.
Diante desse cenário, iniciativas de formação e profissionalização no arquipélago ganharam fôlego.
Em 2024, o governo cabo-verdiano reuniu 127 rabidantes em uma ação formativa que, pela primeira vez, reconheceu oficialmente a centralidade desse trabalho para a economia do País.
O programa, “Nu Krer Ser Digital”, aposta na digitalização como futuro da atividade: capacita em gestão, finanças, vendas online, controle de estoque e acesso a fornecedores, numa tentativa de transformar a prática profundamente presencial das viagens e das malas em um modelo mais estável, rastreável e menos vulnerável às quebras de rota.
Essa medida também busca fortalecer políticas públicas de desemprego pelo Governo de Cabo Verde, que tenta diminuir a taxa de desemprego com a criação de entidades de segurança social. Com as ações governamentais e a esperança do retorno dos voos diretos entre Cabo Verde e Fortaleza, as rabidantes entram em uma nova etapa em suas rotas comerciais e poderão, em um futuro próximo, estarem presentes novamente nas feiras alencarianas, sempre juntas e com várias sacolas, como eram reconhecidas pela cidade.