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O Cedro e a Carnauba: o elo entre o Libano e
o Ceara, Cesar Ary

Um cearense que honra seus antepassados e perpertua suas raízes por meio da palavra escrita 

Por Rafaell Estebann, Léo Victor Lima e Eduarda de Almeida

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Audiodescrição

No final do século XIX, uma embarcação buscava chegar à América com um povo vindo de um continente longínquo. Foram semanas de uma viagem tortuosa, em mares revoltos, fugindo de uma vida que já não os pertencia mais e com a incerteza de chegar em uma terra nova, sem saber o que os aguardava. 

 

Os aventureiros atravessaram o Mar Mediterrâneo com ondas impiedosas batendo no casco do navio. Tempestades e ventos arrebatadores acometiam as embarcações precárias, com centenas de passageiros. Os recursos limitados e a distância da família agravavam a situação que poderia se estender, ao todo, por  40 dias de desespero. Nem mesmo a chegada ao Oceano Atlântico os  animava: a longa distância que teria de ser percorrida, somada ao clima quente dos trópicos e a escassez de alimentos frescos, causava uma distorção sensorial e uma necessidade corrosiva de chegar ao destino final.

 

Muitos não aguentavam e desistiam durante o  percurso . O objetivo principal era chegar aos Estados Unidos: considerada a terra das oportunidades. Mas, ao aportar no primeiro país em que conseguiam sentir terra firme, amarravam seu burrinho ali e tentavam uma nova vida. Assim aconteceu a vinda de uma parte dos imigrantes libaneses ao Brasil, mas a maioria não foi dessa forma.

 

A maior leva de imigrantes libaneses chegou ao Brasil em meio a um movimento de fuga. Muitos foram influenciados pela cordial visita de Dom Pedro II ao Líbano, em 1876, mas a principal motivação estava na tentativa de escapar da dominação religiosa, política e cultural imposta pelo Império Turco-Otomano. Não por acaso, cerca de 80% desses retirados eram cristãos, segundo o livro “Príncipes da Mentes: As Famílias Libanesas no Ceará", em sua maioria maronitas, seguidos por melquitas e ortodoxos em menor número.

 

Hoje, a comunidade libanesa no Brasil é a maior do mundo. Segundo dados do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, há entre 7 e 10 milhões de brasileiros de descendência libanesa, número consideravelmente maior do que os cerca de 6 milhões de habitantes que vivem na antiga região da Fenícia. Enquanto São Paulo abriga a maior parte desta população, por volta de 2 milhões de pessoas, o Ceará possui uma colônia libanesa com cerca de 20 mil descendentes, divididos em 109 famílias principais. Entre elas, destaca-se a família Ary, da qual Cesar Ary é um dos nomes mais influentes na história da presença libanesa na Terra da Luz.

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Textura de aquarela azul

Descendência e tradição familiar


Cesar é bisneto de Demétrio Dibe, o primeiro galego (apelido inicialmente dado aos libaneses no Brasil e depois passando a nomear outros povos estrangeiros) a pisar em solo cearense, em 1888. Demétrio atravessou o Atlântico sozinho, fugindo da perseguição Turco-Otomana e buscando melhores condições para sua família. Seu avô, pai de sua mãe, também foi um dos primeiros libaneses a chegarem à Terra do Sol, Elias Jacob Romcy, veio para o Ceará em busca de emprego. Cesar olha com muita admiração para a história da sua família e se inspira pela coragem em construir uma nova vida, embora de maneira forçada, em um território com língua, cultura e religião diferentes.

Cesar é um libanês nascido em Fortaleza. Da semente do cedro-do-líbano nasceu uma carnaúba das mais admiráveis. Inspirado na cultura dos seus antepassados e agarrado nos ricos ensinamentos do seu pai e tio, ele se formou em engenharia, construindo uma carreira de sucesso como empresário. 

Cesar Ary no Ideal Clube , durante entrevista para estudantes de Jornalismo da 
Universidade Federal do Ceará. Foto: Maria Eduarda de Almeida

​O libanês-cearense tornou-se sócio da empresa Caiçara Engenharia e esteve à frente da construção do Edifício Caiçara, iniciada em 1961, no Maranhão, um ícone da arquitetura moderna em São Luís, sendo a primeira torre de apartamentos da cidade, localizada na rua Oswaldo Cruz.

 

César não deu vida apenas a um prédio em São Luis. A ilha do amor cumpriu o que seu apelido sugere e foi palco para o nascimento de sua primogênita. Mas a vida, ao mesmo tempo que lhe deu uma das maiores alegrias da vida de um homem, lhe tirou seu melhor amigo e conselheiro: o próprio pai. 

“Eu vivia com ele, onde ele ia, ele me levava”

A relação de Cesar Ary com seu pai, Aziz Ary, ultrapassa os laços consanguíneos para se tornar o pilar central de sua identidade e atuação na comunidade libanesa do Ceará. Cesar descreve o elo com o genitor como “maravilhoso”, sendo ele o mais ligado ao pai entre os oito irmãos. Essa proximidade era de cunho físico e emocional, um convívio inseparável, “eu vivia com ele, onde ele ia, ele me levava”.

 

Essa união permitiu que Cesar absorvesse a cultura de seus antepassados, aprendendo sobre a história do Líbano com o pai. Seu interesse o levava a ler a revista sobre o país que o pai recebia, escrita em francês. Embora a tentativa de ensinar-lhe árabe tenha sido frustrada pela dificuldade do idioma, Cesar adquiriu uma pronúncia e um sotaque, o sotaque da Zahle, a terra natal de seu pai.

 

Aziz Ary não era apenas uma figura familiar, mas um líder cívico de projeção pública, e Cesar acompanhou de perto essa jornada. Ele foi nomeado cônsul em 1952, quando Cesar tinha apenas 17 anos. Seu legado institucional inclui a fundação do Clube Líbano Brasileiro, do Lions Club, em Fortaleza e, posteriormente, em Sobral e da Paróquia Nossa Senhora do Líbano. O pai também presidiu a Associação Comercial do Ceará (ACC).

 

A casa da família, por vezes, transformava-se em um centro de cultura e representação. Cesar, ao crescer imerso nesse ambiente diplomático e associativo, via a atuação do pai como uma missão de vida, pavimentando o caminho para o seu próprio envolvimento futuro com a comunidade, seguindo os passos paternos em relação ao Líbano no Ceará.

 

O legado de Aziz foi maior do que sua presença física e transformou-se em uma herança moral. Quando o Clube Líbano Brasileiro foi vendido, Cesar, que possuía três ações, doou o valor integralmente à Santa Casa de Misericórdia. Para ele, o Clube Líbano Brasileiro não era patrimônio, era seu pai. 

 

“Meu sangue é libanês”

 

Cesar Ary representa a síntese viva da presença libanesa no Ceará, carregando a honra de duas grandes linhagens: ele é Romcy do lado materno e Ary do lado paterno e, assim, afirma ter sangue libanês por completo. A origem desses sobrenomes reflete a antiguidade e a complexidade de sua herança. 

 

O nome Romcy é comumente associado ao nome “Muricy”, que tem origem índigena e relação com antigas famílias comerciantes no Brasil. Já o sobrenome Ary, embora abrasileirado, é uma abreviação de Al-Kari, que significa “o leitor” ou, segundo histórias antigas, indica quem veio da cidade de Kar, na antiga Síria. O sobrenome da mãe vem do avô, Rabi Romcy, outro pioneiro que, assim como os Ary, ajudou a fincar as raízes libanesas no solo quente do Ceará. 

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Superfície azul texturizada

Engenheiro de Novos Caminhos

 

Se o sangue puxava para o comércio, com a influência da mascateação difundida pelos primeiros libanes no país, a alma de Cesar queria desenhar. Nos anos 1950, a diferença entre engenheiro e arquiteto era meio confusa no imaginário das pessoas. Cesar, que tinha um talento natural para o traço, conseguia fazer o retrato de alguém igualzinho “só de olhar”. Foi então que decidiu estudar Engenharia, achando que seria parecido com Arquitetura. Não foi um erro, mas um desvio do destino que acabou dando certo.

 

Ainda estudante, no quarto ano da faculdade, ele trocava a sala de aula pela poeira das obras. Seu mestre não foi um professor distante, mas seu tio, João Batista Romcy, dono da Construtora Caiçara, a maior do Ceará na época. Foi ali, levantando as casas da sociedade cearense e obras do governo, que Cesar aprendeu a profissão na prática, sujando a bota de barro.

 

Quando se formou na primeira turma de Engenharia da Universidade Federal do Ceará, ele não quis o caminho mais fácil. Enquanto quase todos os colegas aceitavam empregos públicos garantidos em secretarias, Cesar recusou sete convites. “Não me formei para ficar em um escritório carimbando papel”, pensou ele na época. O sobrinho de João Batista queria a obra, a construção, “ver a mudança acontecer”.

 

Sua marca está espalhada por Fortaleza e além. Se no Maranhão ele construiu um prédio pioneiro, no Ceará ele se dedicou a obras que serviam ao povo. Como engenheiro do Departamento de Água e Esgoto e, depois, com sua própria empresa, a Provias, César ajudou a criar a infraestrutura do estado. Fez escolas e mercados públicos, como o Mercado do Carlito Pamplona. Ele também fazia os cálculos de concreto para prédios de três andares, numa época em que isso já era um sinal de que a cidade começaria a crescer verticalmente.

 

 

História e herança: legado construído em gerações

Cesar não construiu apenas com tijolos e cimento. Quando se aposentou, trocou os cálculos pela escrita, honrando seu sobrenome “Al-Kari” (o leitor). Escreveu sete livros, incluindo um muito especial para si, bilíngue e cheio de fotos, sobre a vida de seu pai. Escrever, para ele, virou um jeito de não deixar a história morrer.

 

Essa dedicação natural o colocou no caminho para ser cônsul, assim como o pai. Por anos, ele foi o nome certo para assumir o cargo em Fortaleza. O processo até começou, mas as crises políticas no Líbano travaram a nomeação por mais de 20 anos.

 

Hoje, aos 90 anos, embora pareça ter 70 devido à atividade e bem-estar físico, Cesar diz que, se o convite chegasse agora, agradeceria, mas não aceitaria. Ele entende que já faz esse papel de diplomata no dia a dia, mantendo a união entre as famílias descendentes no Ceará.

 

Comunidade libanesa

Cesar Ary celebra a vida com gosto. Casado há 25 anos com sua segunda esposa, uma psicóloga da família Montenegro, ele mistura o Brasil e o Líbano na rotina. Duas vezes por semana, é sagrado seu almoço no restaurante Filó, onde come um pouco da comida brasileira e um pouco da libanesa. “A comida libanesa é a mais gostosa de todas”, garante, lembrando dos sabores da infância.

 

Ele tem muita energia. Adora as músicas francesas, italianas e algumas latino-americanas dos anos 1950 e 60 e não dispensa dançar nos encontros anuais da família Romcy que ele mesmo organiza. Seguindo o exemplo do pai, transformou suas festas em solidariedade. No aniversário de 90 anos, não quis presentes. Pediu doações para os convidados, enchendo um caminhão para a caridade, através da Associação Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, repetindo o que já tinha feito nos 80 anos.

 

Ao fitar sua própria trajetória, Cesar faz uma correção importante. Ele não gosta do termo “colônia libanesa”. Para ele, o termo colônia remete à gente de fora querendo mandar ou colonizar. “Prefiro chamar de comunidade”, defende, ao passo que transmite segurança e respaldo com a opinião.

 

E é isso que eles construíram, uma união. Hoje, as famílias libanesas são vistas como famílias tradicionais do Ceará, totalmente integradas. Aos 90 anos, Cesar Ary olha para a história e o legado da família com orgulho. Como o cedro que cria raízes fortes ou a carnaúba que resiste a tudo, Cesar não precisou escolher. Ele é, de coração, as duas coisas.

Cezar Ary autografa seu livro Príncipes da Mentes: As Famílias 

Libanesas no Ceará / Foto: Maria Eduarda de Almeida

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Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo I do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: profa. Rosane Nunes | Semestre 2025.2

Curso de Jornalismo da UFC

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