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A imigracao venezuelana em terras alencarianas

Mesmo com programas institucionais e independentes para acolhida de imigrantes, eles ainda encontram barreiras para se estabilizar na capital cearense

 

Por Isabelle Barros e Milenna Murta

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É chegada a hora de fazer as malas. Deixar a família e a cultura conhecidas para viver em um novo país, com diferentes idiomas, gostos musicais e paladares. O que cabe numa mala quando o que se despede ainda se mantém? Resta é guardar o máximo de recordações e a esperança por melhores condições tanto para quem vai, quanto para quem fica.

Porém, nem toda partida nasce da mesma maneira. Pela Lei Brasileira de Refúgio, número 9.474 de 1997, enquanto refugiado é aquele que deixa seu país por “fundados temores de perseguição”, imigrante é quem cruza fronteiras sem necessariamente estar em situação de risco. 

É na prática, entretanto, que essas divisões conceituais se misturam: muitos venezuelanos chegam ao Brasil sem documentos, fugindo de um colapso governamental e econômico.

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OS NUMEROS QUE NAO FECHAM

“A Constituição diz que não podemos fazer diferença entre brasileiros e estrangeiros. É primazia do direito humano receber e atender quem chega”, afirma Socorro França, secretária dos Direitos Humanos no Ceará (SEDIH), à qual o Programa Estadual de Atenção ao Migrante, Refugiado e Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas é vinculado. 

O programa tem por objetivo centralizar ações de acolhida que vão desde o primeiro atendimento até a integração nas redes de Saúde, Educação e Trabalho. Há, também, outros órgãos e iniciativas que se propõem a atuar na assistência a imigrantes e refugiados na capital, como o Posto Avançado de Atendimento Humanizado ao Migrante (PAAHM), com sedes no Aeroporto Pinto Martins e na Rodoviária Antônio Bezerra, e a Pastoral do Migrante.

 

Mas será que esse acolhimento é capaz de contornar os impasses institucionais e sociais, como a discriminação e a escassez de medidas de verdadeira integração à sociedade, por meio da empregabilidade, do lazer e da moradia digna?

Reprodução: Dados do Programa Estadual de Atenção ao Migrante

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Segundo dados de julho de 2025 divulgados pela SEDIH, Fortaleza abriga 29.466 imigrantes registrados, com 1.029 pessoas ainda aguardando a conclusão do processo de solicitação de registro. As informações mais recentes do Programa Estadual de Atenção ao Migrante, conseguidas pela equipe de reportagem, revelam que, em 2023, cerca de 37% dos atendimentos realizados na Capital foram destinados a refugiados venezuelanos. 

Esse quadro local se insere em um cenário migratório muito mais amplo: de acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados, até 2019, mais de 4,7 milhões de venezuelanos haviam deixado o país, e cerca de 62 mil solicitaram refúgio no Brasil. A equipe de reportagem não obteve, junto à SEDIH, dados exatos sobre um quantitativo desses imigrantes que hoje vivem em Fortaleza. 

Juntos, esses números não apenas revelam lacunas no monitoramento das estatísticas oficiais, como também indicam que o Ceará, mesmo distante da fronteira, consolidou-se como um destino significativo para pessoas que buscam recomeçar. Conforme aponta o jornalista Daniel Rocha, na monografia “Eu tive que sair: a história de refugiados venezuelanos em Fortaleza”, do curso de Jornalismo da UFC, até 2020 cerca de 80% das solicitações de refúgio ocorreram nos primeiros quatro meses do ano, com base em dados sistematizados em consonância com informações do Ministério da Justiça.

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ABRIGOS, BAIRROS E PERIFERIAS:
ONDE VIVEM OS VENEZUELANOS?

A principal porta de entrada dos venezuelanos no Brasil é Roraima. Chegando pela cidade de Pacaraima, há uma base do Posto de Triagem da Operação Acolhida (PTRIG), monitorada por agentes da Polícia Federal (PF). Quem deseja entrar legalmente no Brasil deve esperar a abertura da fronteira para retirar os documentos e dar início a uma nova vida no país vizinho.

Há meia década, quando tinha 20 anos, Yulmary Berti deixou a ditadura de Nicolás Maduro em companhia do marido e dos dois filhos, estando o mais novo ainda no ventre. No pequeno município fronteiriço, a família residiu por dois meses, até seguir para a capital, Boa Vista, onde permaneceu por mais um trimestre, aguardando uma oportunidade de voo comercial. 

O destino? São os próprios agentes da PF que decidem: Rio de Janeiro, São Paulo, Minas Gerais – as decolagens são diversas, e os motivos das viagens também.

Por não ter conhecidos ou familiares no Brasil, Yulmary entrou na fila de quem viaja “abrigo por abrigo”. Da acolhida em Roraima, a família foi direcionada à Pastoral do Migrante de Fortaleza. “Eles te perguntam, você quer viajar ou não? E a gente tem que aceitar, né? Não tem muita escolha”, compartilha a venezuelana ao relembrar sua chegada à cidade alencarina.

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É no Presidente Kennedy que a Pastoral está localizada e, na perspectiva de Yulmary, concentra-se também uma significativa população de venezuelanos. A organização surgiu em 1995 com o fim de acolher e defender os direitos dos migrantes, além de promover “formação humana e espiritual”, conforme o site da Arquidiocese de Fortaleza. 

No dia a dia, essa acolhida encontra limites nas parcerias institucionais e na própria rede de inclusão sociocultural, atravessada por burocracias.

Na Pastoral, a família de Yulmary chegou em outubro de 2020, onde ficou até encontrar um apartamento para alugar. Isso porque, apesar de oferecer um acolhimento inicial, o período máximo de estabelecimento na organização é de dois a três meses, prazo estipulado para que os imigrantes consigam algum vínculo empregatício. 

Ao ser perguntada se recebeu algum tipo de orientação da Pastoral no processo de mudança, Yulmary responde que teve de fazer tudo “sozinha”. “Eles [os brasileiros] não estão acostumados a alugar para pessoas diferentes [de outras nacionalidades], porque não têm confiança, não conhecem ainda”, reflete sobre as barreiras de acolhimento encontradas.

A equipe de reportagem entrou em contato com a Pastoral do Migrante para maiores esclarecimentos e foi informada que a chamada Casa de Acolhida, que recebia essa população, foi fechada em 2024. Agora, apenas os atendimentos são realizados. A organização não deu maiores explicações quanto ao funcionamento.

PARA QUEM CHEGAM AS OPORTUNIDADES?

A busca por moradia ao chegar no Brasil é compartilhada com outra procura tão, ou até mais, importante que conquistar um espaço para se estabelecer. Encontrar um meio de trabalho aparece como a solução mais eficiente para se manter financeiramente no país e, também, uma das portas de entrada para viajar aos demais estados da federação.


Chamada de Operação Acolhida, a base de missão humanitária em Boa Vista oferta, em parceria com o Serviço Nacional de Aprendizagem Comercial (Senac), cursos profissionalizantes para facilitar a inserção dos imigrantes no mercado de trabalho brasileiro. É lá que, antes mesmo de sua vinda ao Ceará, Yulmary e o marido têm o primeiro contato com as práticas empregatícias.


“Eu acho bom, porque dá uma base para nós. Assim, quando chegamos, não é tão difícil começar de novo”, ela compartilha quanto à profissionalização ofertada.
Na Operação, há três possibilidades de viajar para as demais unidades federativas: tendo amigos ou familiares no país, abrigo por abrigo ou vaga de trabalho. Apesar da profissionalização do marido, a espera por uma nova oportunidade de sair de Roraima foi estendida até outubro e não contemplou um vínculo empregatício.


“Para a gente poder viajar com vagas de trabalho, eles têm que fazer entrevistas online de qualquer estado. Se te aceitam, tem que firmar o contrato, assinar sua carteira digital estando lá longe. Quando está assinada sua carteira de trabalho, eles mandam. Meu esposo procurou trabalhos assim, mas não saiu”, expôs sem demonstrar grandes decepções.


Com a chegada à Fortaleza, a procura por emprego continuou de maneira independente. O marido de Yulmary, eventualmente, conseguiu se estabelecer em uma padaria do Bairro de Fátima, onde trabalhou por três anos, mas foi demitido sem justa causa no início de 2025.
Ausente de auxílio direto de órgãos públicos, sua voz é tomada por cansaço ao expor as dificuldades envoltas em obter uma fonte de renda. Para ela, ter oportunidades para imigrantes é algo raro, que depende dos contatos e amizades certas. 


“Você fala que ajuda, mas a quem está ajudando? Se eu preciso de um trabalho, tenho que conhecer primeiro a você, entendeu? E, então, você fala com outra pessoa e me recomenda. É só assim”, aponta ao explicar os atalhos que são necessários para conseguir esse sucesso.
Mãe de dois filhos pequenos, a venezuelana não tem como se profissionalizar para uma vaga no mercado de trabalho no momento. Essa função continua a cargo do marido, que retornou recentemente às funções empregatícias em uma distribuidora de gasolina e gás de cozinha.

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Quadro-negro verde

A MORADA ALENCARNA
POR OLHOS VENEZUELANOS

A cidade natal de Yulmary não é litorânea. Por 20 anos, ela não havia conhecido o mar. Ao chegar em Fortaleza, conta que ir à praia foi uma das primeiras atividades que quis fazer, influenciada, também, pela dica de um dos oficiais de Roraima que carimbou sua vinda para o Ceará.

Impressões de lazer são variadas quando pensa em Fortaleza, desde a curiosidade com a cultura do São João do Maracanaú, devido aos vestidos e à festa ao ar livre; passando pelas atividades no Parque Rachel de Queiroz; até à Exposição Agropecuária e Industrial do Estado do Ceará (Expoece).

Os pontos positivos, aos poucos, enumeram-se na mente da venezuelana, como a boa educação e a segurança que os brasileiros têm sobre os próprios direitos - atitudes que ela enxerga como problemas na Venezuela. 

“Educação é boa, sabe? Comparando com a educação de lá, é bom aqui. Aqui houve uma luta, entendeu? Para melhorar a educação. Na Venezuela, não. Um dia você tem aula, um dia não, um mês sim, um mês não. É difícil. Como uma criança vai aprender?”, reflete com um quê saudoso para as práticas do Brasil.

De igual modo, ela dá um breve puxão de orelha para quem reclama de ser brasileiro: “As pessoas do Brasil falam que não tem nada, que não tem comida, mas tá errado, sabe? Eles não sabem o sofrimento. Eu acho que a pessoa que mora aqui é afortunada. O Brasil dá apoio social, bastante, e eles não valorizam. Fico com muita pena, porque eles não sabem o que têm”.

Entretanto, assim como há admirações, Yulmary destaca a quebra de expectativa que sentiu ao chegar à cidade. Ela se recorda que, ao entrar em Boa Vista, ficou admirada com a beleza que a capital nortista emanava, fator que não foi repetido ao conhecer sua Fortaleza.

“Senti que a cidade era abandonada – as paredes e a casa diferentes, destruídas”. Acontece que a família latina não estava na capital dos cartões postais, cercados entre a orla da Beira-Mar e a estátua de Iracema. Logo na chegada, eles conheceram a Fortaleza de quem não mora em bairros com alto índice de renda per capita.

Apesar desse esclarecimento lhe ter ficado claro durante as primeiras semanas, Yulmary ainda verbaliza, mesmo depois de anos, sua insatisfação com a disparidade de duas capitais alencarinas tão diferentes, reforçando que é preciso “ter mais carinho pelos bairros”.

Hoje, aos 26 anos, a venezuelana sente falta da comida de casa na mesma medida em que se delicia com a gastronomia local - especialmente a macarronada. Ainda assim, ela pensa em retornar, mesmo que não sejam planos imediatos.

Yulmary entende que ainda falta o apoio de órgãos públicos, com ações que, de fato, cheguem para os imigrantes. Porém, entre dificuldades burocráticas e boas saídas por seu bairro, Fortaleza continua a ser a casa que lhe acolheu pelos últimos anos, enquanto sua morada própria ainda não é obtida na Venezuela.

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Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo I do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: profa. Rosane Nunes | Semestre 2025.2

Curso de Jornalismo da UFC

​Avenida da Universidade, 2762, Benfica, Fortaleza - Ceará CEP 60020-180​E-mail: coordenacaojornalismo@ufc.br

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