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Raízes sul-coreanas em solo fortalezense

A jornada do sul-coreano Sung Hyung Woo, que chegou ao Brasil como engenheiro, e agora mantém um restaurante a um quarteirão de distância da Beira-Mar, avenida turística em Fortaleza, Ceará.

 

Por Alice Barbosa, Eduarda Cordeiro, Laura Diógenes e Yan Victor.

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Audiodescrição

Ao cruzar fronteiras, um imigrante carrega consigo malas, sonhos, memórias e medos. A jornada migratória do sul-coreano Sung Hyung Woo também começou assim, quando chegou ao Brasil em 2013 para trabalhar no Complexo Industrial e Portuário do Pecém, localizado no município de São Gonçalo do Amarante, no Ceará.

Sung, melhor conhecido como Branco, tem 45 anos, reside em Fortaleza há mais de uma década, e é o pai orgulhoso de Sofia, uma pequena coreana de 12 anos que é criada em terras brasileiras. Sobre o apelido, dado por colegas mexicanos enquanto o mesmo era um mochileiro desbravador do mundo, Branco comenta simplesmente: “É mais fácil que pronunciar o meu nome”. 

Embora goste de morar em Fortaleza, Branco por vezes sente que está perdendo parte da sua cultura, ainda que, de natureza exploradora, o empresário e ex-mochileiro esteja sempre aberto a conhecer coisas novas. “Eu nunca imaginei que moraria por muito tempo no Brasil. Estou gostando, não tenho muita saudade da Coreia do Sul. Lá eu morei pouco mais de 25 anos e depois saí”, comenta.

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Branco e sua família. (Foto: Acervo Pessoal) 

Para preservar a cultura, eles fazem questão de falar coreano em casa e fazer testes ou provas sobre o idioma para a filha manter o aprendizado da língua: Branco e sua esposa temem que Sofia perca a conexão com a família e o país natal.

Além de tudo, Branco afirma que a mudança de país trouxe um alívio psicológico. A Coreia do Sul é descrita por ele como um país de extrema competição e pressão social. Ele relata que na Coreia as pessoas sentem que devem seguir um modelo de vida rígido em relação aos estudos, e posteriormente no ambiente de trabalho, optando por grandes empresas. “Tem muita pressão. Essa é parte ruim para o coreano. É muita competição. É muito mais competitivo do que aqui”. 

“Lá a família faz muita pressão, porque na Coreia tem um modelo. “Qual carro você tem? Qual apartamento você tem? Com qual mulher você casou? Se você fica fora desse modelo, é como se ficasse quebrado”, diz. Ele observa que isso pode causar problemas de saúde mental e altos índices de suicídio. 

A Coreia do Sul tem a maior taxa de suicídio entre os países desenvolvidos, membros da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), fato confirmado em números absolutos pela Organização Mundial de Saúde (OMS).

Permanecer no Brasil exigiu a superação de barreiras linguísticas, burocráticas e a convivência com diferenças culturais marcantes, especialmente em relação à falta de pontualidade brasileira e às normas sociais flexíveis. “Aqui o conceito do horário é pouco diferente. 7 horas significam 6:30, ou então até 8:30”, brinca.

O processo de adaptação de Branco foi como se dividir entre as fronteiras: de um lado, a segurança e as regras claras da Coreia, e do outro, o calor humano e a menor rigidez do Brasil. Isso exigiu que Branco ajustasse seus hábitos e expectativas para prosperar no novo ambiente.

A imigração para o Brasil ofereceu a Sung a oportunidade de realizar um velho sonho empreendedor de ser proprietário de um restaurante. 

Engenheiro quando veio ao Brasil, não voltou como a maioria dos coreanos contratados pelo projeto, que foram embora após a conclusão do trabalho. Branco decidiu ficar e abrir seu restaurante coreano na praia do Cumbuco, em Caucaia. “Não deu certo”, diz Branco, que se reconstruiu do zero, enquanto tentava manter viva a própria identidade. 

Sung, que já tinha inclinação para empreender, e interesse em abrir um pequeno restaurante ou pousada para interagir com os clientes diariamente, não desistiu,  persistiu e em 2015 inaugurou  um restaurante no bairro Meireles, em Fortaleza.

Sem saber a língua do País, a primeira barreira na jornada migratória acabou sendo o idioma, e, além das palavras, aprendeu aos poucos com a própria clientela os códigos e gestos para ser compreendido.

Nesse processo, ele aprendeu o português e até as gírias cearenses que escapam aos dicionários. “O povo é muito bom, muito simpático. As pessoas que tem dinheiro e as que não tem também aproveitam a praia e a natureza, que é muito linda”, elogia. 

Branco aprecia Fortaleza por oferecer um ambiente acolhedor e um estilo de vida que se afasta da pressão incessante da Coreia do Sul, e acrescenta que existem pontos negativos e positivos em ambos países. Para ele, na Coreia existem qualidades que merecem destaque, como a segurança pública e o dinamismo econômico, que ocorre por meio de diversos serviços e estabelecimentos. 

Logo, no dia a dia do restaurante, ele une este aprendizado ao ato de cumprimentar as pessoas com “bom dia”, prática que aprendeu com a cultura brasileira, ficando sempre à disposição para ajudar os outros de forma cuidadosa e atenciosa.

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Gastronomia e casa, memoria e a ponte entre a Coreia do Sul e o Brasil

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Para Branco, o ato de cozinhar acabou se tornando mais que profissão. Na sua trajetória até abrir o seu atual empreendimento, ele passou por diversos cantos do mundo e trabalhos, alimentado por uma vontade antiga de viver em diferentes lugares. “Eu sempre quis morar em vários países. Já viajei e trabalhei fora da Coreia, conheço mais de 50 países”, ele conta.

Na capital alencarina, Branco encontrou algo que nenhuma outra cidade lhe ofereceu: a possibilidade de construir vínculos diários por meio da comida. Em Fortaleza ele percebeu o potencial de um restaurante, porque admirou o jeito de viver dos cearenses, que para ele é mais leve, afetivo, e aberto ao outro.

Então, já que a comensalidade sempre foi essa oportunidade de ver pessoas, conversar e criar laços, existiu ali um solo fértil para o nascimento do sonho. Quando abriu o estabelecimento, a cena gastronômica fortalezense ainda era tímida em relação à culinária asiática. 

O público que buscava comida coreana era pequeno, e composto principalmente por jovens fãs de K-pop e dramas coreanos. “No começo era mais adolescente, gente de vinte e poucos anos. Não era um público muito grande para restaurante”, lembra.

Para Branco, foi uma surpresa equilibrar a gastronomia coreana - carregada de criatividade no uso de temperos como pimenta, fermentação e o sabor umami, a outros ingredientes, que são abundantes no Brasil e popularmente marcados por sabores mais simples e menos intensos.

Ele apontou que adaptar-se sem perder a essência foi um desafio. “Coreano não gosta de comida muito salgada e nem muito doce. Aqui é tudo separado: salgado é salgado, doce é doce. É diferente”. Mas nem tudo na culinária local gerou estranheza: “Cuscuz? Eu gosto”, afirmou com o verbo e com os olhos.

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Restaurante, no bairro Meireles, em Fortaleza. Sung Hyung Woo ao fundo. (Foto: Laura Diógenes)

Ainda assim, manteve no cardápio pilares da cozinha coreana, como a combinação entre o típico apimentado, o doce, o salgado e o ácido para atingir o equilíbrio, princípio forte da Coreia.

 

Abriu mão de pratos muito extremos, como sopas picantes e preparos fermentados intensos, mas preservou o que considera indispensável: a honestidade do sabor e a experiência de comer em comunidade.

Para sua surpresa, com o passar dos anos, o público mudou. A juventude passou a levar os seus pais e amigos, e a culinária coreana se consolidou não por moda, mas por gosto e fidelidade do cliente. “Hoje vem gente de 40, 50, até mais de 60 anos, interessada na culinária mesmo, não só por K-pop”, observa.

Segundo ele, muitos clientes chegam por curiosidade cultural e acabam retornando. “Conhecem uma vez, depois voltam duas, três vezes. Vão testando outros pratos”, afirma. Hoje, senhores e senhoras frequentam o K-Bab, conversam sobre atores e criam grupos para celebrar aniversários coreanos, possibilitando que a gastronomia se torne de vez a porta de entrada para a cultura do país em Fortaleza.

No K-Bab, a comida é exatamente esse ponto de encontro, um lugar onde duas culturas se tocam sem se anular, elas apenas somam, ou até multiplicam.

 

No seu restaurante, Branco mostra a Coreia não somente pelas receitas, mas pela história do homem que, entre cuscuz e kimchi, escolheu transformar um pedaço de sua identidade em um espaço onde sabores constroem pertencimento.

O restaurante se tornou parte do cenário gastronômico local, e prova de que quando um preparo é feito com verdade, ele atravessa oceanos.

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Entre o confucionismo e a hierarquia social na Coreia

O empresário ressalta que a Coréia do Sul é liderada pelo confucionismo, uma ética filosófica, que atravessa gerações. A doutrina é baseada nas antigas tradições chinesas, constituídas a partir de um conjunto de ensinamentos sobre ética social, humanidade, justiça e igualdade.

 

Esse pensamento está entrelaçado na cultura do país até os dias de hoje, e serve de base para o ensinamento da população.

Uma grande diferença cultural notada por Branco que, vindo de um um país cheio de regras fixas e normas perpassadas desde cedo, é explicitamente a forma que as pessoas são tratadas no Brasil. Do lado de lá, os mais velhos estão no topo da “hierarquia social”, recebendo mais respeito e credibilidade, justificados pela experiência que carregam.

 

Um dos exemplos usados por ele é o momento do jantar, quando o mais velho precisa comer primeiro para que todos os mais novos alimentem-se na sequência por respeito.

Não se trata apenas de cortesia, mas sim de uma obediência imposta e esperada pela tradicional sociedade coreana. Outras formas de tratamento envolvem rituais como receber e entregar objetos usando as duas mãos, e fazer reverências ao comprimentar pessoas.

 

É comum encontrar termos específicos e o dialeto certo para se comunicar com pessoas mais velhas na Coréia, como o Noona (누나) e Unnie (언니). Para se referirem às mulheres e homens de mais idade, é usado respectivamente; Oppa (오빠) e Hyung (형).

Já nas universidades ou no ambiente de trabalho, é comum o termo Sunbae (선배), ou sufixos ssi (씨) e nim (님) como uma demonstração de respeito ao seniores e veteranos.  Em contrapartida, aqui no Brasil, Branco reparou um ponto específico da cultura local: as crianças são bem consideradas. Não que na Coreia seja o contrário. Mas,Branco afirma que aprecia esta prática. “Decidimos bem ao escolhermos morar aqui”, comentou o empresário.

Seul ate Brasilia, os tropeços de duas democracias como denominador comum

Quando Sung Hyung Woo desembarcou em Fortaleza em 2013, o Brasil via, nas grandes manifestações de rua, as primeiras trovoadas da crise política que continuaria a abalar o País pela década seguinte. 

Curiosamente, na Coreia do Sul, a instabilidade também começava: o teste nuclear norte-coreano em 2013 marcaria o início de profundas  turbulências sociais e políticas que culminaram, no dia 9 de dezembro de 2016, no impeachment da até então presidenta Park Geun-hye, em um dos maiores escândalos políticos da história recente da Coreia do Sul.

Mas, para Sung, aquilo tudo era ruído distante. Como a maior parte dos coreanos que na época viviam na Vila do Cumbuco enquanto trabalhavam no Porto do Pecém, ele recebia salário em won e vivia quase isolado na sua rotina de trabalho. 

O que chamou sua atenção, porém, foi a coincidência: “Na Coreia, na mesma época, uma presidente mulher também passou por impeachment”, lembra, traçando um paralelo entre escândalo que derrubou Park Geun-hye e o golpe jurídico-parlamentar que tirou Dilma Rousseff do poder, também em 2016.

Essa simetria entre a fragilidade de duas democracias, capturada através do impeachment quase simultâneo das duas presidentas, moldou parte de seu olhar sobre política e imprensa. “Antigamente, a mídia era natural. Agora todo mundo quer ouvir só o que agrada”, comenta, refletindo sobre a polarização que enxerga como fenômeno global e não exclusivamente brasileiro.

 

Sung Hyung Woo observa o caminho que as duas democracias trilharam desde 2013. Brasil e Coreia carregam uma polarização intensa e disputas narrativas. “É igual no mundo todo agora”, conclui.

Permeado pela rotina do restaurante e conversas com clientes, Sung segue construindo uma vida que não imaginaria ter, mas que hoje defende com firmeza. “Eu gosto daqui. As pessoas são boas. Fortaleza me acolheu.” E, ao abrir seu restaurante, o Sul-Coreano devolve o gesto, servindo à cidade não apenas os pratos de sua terra natal, mas uma ponte entre dois países que, apesar de separados por enormes distâncias e profundas diferenças culturais, têm histórias recentes surpreendentemente paralelas.

Entre o ruído das panelas e o cheiro do Dupbap, Sung Hyung Woo segue observando o Brasil com calma, comparando com sua Coreia natal, e oferecendo em cada prato um pequeno lembrete de que o mundo é grande, mas as pessoas, suas culturas e histórias são muito mais entrelaçadas do que normalmente se espera.

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Esse é um produto da disciplina Laboratório de Jornalismo I do curso de Jornalismo da UFC


Orientação: profa. Rosane Nunes | Semestre 2025.2

Curso de Jornalismo da UFC

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