
Sahtein: a culinaria
do Ceara ao Libano
Misturando narrativa autoral, ambientação sonora e reportagem cultural, esta crônica sonora conta uma experiência gastronômica em Fortaleza. A partir do ritual do domingo cearense, o áudio conduz o ouvinte por reflexões sobre descanso, identidade e acolhimento, até chegar ao restaurante Chacra, onde a culinária libanesa se entrelaça com sabores e costumes locais.
Por Eduarda de Almeida, Léo Victor Lima e Driccia Hellen
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CRONICA TRANSCRITA
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Sahtein: a culinária do Ceará ao Líbano
O domingo é dia de sossego para o cearense. É aquele momento de deitar numa rede e passar a manhã inteira “coçando o buxo”, comendo um petisco, bebendo uma cerveja , botando as séries em dia ou vendo aquele jogo de futebol. O mínimo movimento além do descanso para quem passa de segunda a sexta, e às vezes o sábado, no trabalho, é sofrido.
E para os que se permitem sair do conforto de casa, existem várias possibilidades, mas a regra é clara: a voltinha tem que ser tranquila. Os religiosos vão ao templo pedir para qualquer que seja seu Deus abençoar mais uma semana; os mais atléticos acordam pela manhã cedo e vão correr até mesmo antes do amanhecer. Há ainda quem goste de curtir uma praia e tomar um sol na Beira-Mar ou fazer um piquenique no parque do Cocó.
Uma coisa é certa, domingo não é o dia para arriscar. É levantar da cama, se não estiver com ressaca das várias doses de cachaça da bebedeira no sábado, pegar o galeto mais perto de casa para não ter que preparar a mistura e passar o resto do dia fazendo aquilo que você tem a certeza que lhe faz bem para não ter perigo de estragar o resto da semana com uma experiência desagradável.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - VIRADA DE PÁGINA]
Mas em uma cidade tão grande e diversa como Fortaleza, o fim de semana também pode ser dedicado ao desconhecido. E, com certeza, não falta o que desbravar na maior economia do Nordeste. Praças, parques, museus, lagoas, feiras, shoppings. É impossível até para o fortalezense mais antigo ter se aprofundado e conhecido todas as estruturas que essa metrópole tem para oferecer. E as pessoas também.
A multiplicidade de indivíduos na cidade é uma afronta à ideia do cearense cabeçudo e carrancudo. Há quem arraste o “r”, quem fale o “tí”, quem cante as frases, quem misture gíria nova com ditado antigo, quem vá de chinelo com prego e quem se produza como se todo dia fosse evento. O cearense cabe em muitos corpos e muitos humores, do riso frouxo à seriedade do cabra macho, sem perder o jeito próprio de existir.
E talvez por isso mesmo o Ceará seja tão dado a acolher. Entre passeios e descansos, o “bora, mancho” se mistura também com o “come on, guy” e o “Yalla habibi”. Línguas estrangeiras param para pedir informação e o olho claro do galego encara o forte azul do mar. Franceses, árabes, argentinos, africanos, asiáticos, gente que chega para ficar ou só passear. No fim, o Ceará não é só terra de cearense: é porto, é passagem, é encontro e interlaço. Um estado onde o mundo também resolve tirar o domingo para pousar.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - VIRADA DE PÁGINA]
E quando a pluralidade da cultura estrangeira e o jeitinho carismático e acolhedor do cearense se encontram, dá um forró do bom! Ou melhor, restaurante. O Chacra que eu conheci num desses domingo experimentais, é fruto dessa miscigenação. Ao estar à frente da fachada fiquei encantado com a beleza do lugar, o qual se assemelha a uma grande casa antiga, que se destaca entre os prédios da avenida Rogaciano Leite.
Entrei no local com uma empolgação voraz, não sei se pela expectativa do novo, de saber quais sabores inéditos meu paladar experimentaria ou se pela fome que já doía na boca do estômago. Mas parei e me atentei. Não deixei o ronco que meu corpo produzia interromper a sensação de entrar no Chacra pela primeira vez.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - PORTA ABRINDO E CONVERSAS INDISTINTAS]
O hall possui luz baixa e tocava uma música árabe da qual eu claramente não entendia sequer uma palavra. Ainda achei muito bonito de qualquer forma e me senti transportado para essa cultura milenar. O cedro verde estava presente na bandeira do Líbano hasteada na parede defronte a porta de entrada, a qual do lado oposto, nomes de famílias árabes eram expostas na parede. Tirei foto de tudo, pensando estar turistando no próprio Líbano.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - MULHER CANTANDO MÚSICA ÁRABE]
O restaurante é dividido em dois espaços, o primeiro fechado com cadeiras de couro e um belo grafite colorido que enfeitava a parede marrom, representando os montes do Líbano, seu café, os templos e as grandes navegações ainda da época dos fenícios, com os dizeres ao lado “sahtein”- “bom apetite” em árabe. Optei por sentar com meu namorado e um casal de amigos nessa jornada no segundo espaço: aberto e com a luz do sol iluminando as mentes para a experiência que estava por vir.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - VIRADA DE PÁGINA]
Domingo, passando da uma da tarde. Pro cearense raíz, que come as tripas do boi, não importa a comida que for, na hora do almoço ataca o que tiver e é sem frescura. No meu primeiro prato coloquei um pouco de cada, em busca da experiência árabe completa.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - TILINTAR DE PRATOS E TALHERES]
Como um bom brasileiro, coloquei primeiro um bom “mjadra” para iniciar o prato. Mas o que diabéisso? É apenas um arroz, feito com lentilha e cebola. Muitíssimo saboroso. Acompanhado do mjadra adicionei tabule, uma saladinha leve e refrescante. Parecido com o vinagrete de vista, mas com um sabor mais aromático devido a presença da hortelã.
TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - VIRADA DE PÁGINA]
A mistura foi farta. Uma galinha síria, frita, em formato semelhante a um kibe; falafel, uma espécie de bolinho frito de grão-de-bico; uma kafta ao molho; kibe frito; esfiha aberta e fechada; chichibarak, uma massa semelhante ao ravióli com carne dentro e regada ao molho por fora. Tudo com sabor muito rico e extremamente temperado.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - VIRADA DE PÁGINA]
Para o segundo prato fui mais moderado. Acompanhando o talamezaatar, um alimento parecido com uma pizza, mas bem mais fina, com tomilho e gergelim dando sabor, adicionei um pão folha: tradicionalíssimo na comida libanesa, que, montado junto com húmus e o kibe cru, dá uma deliciosa combinação. Só não me permiti provar o shakshuka: uma mistura de ovos fritos com molho de tomate. Esse foi o meu limite.
[TRILHA SONORA CURTA DE TRANSIÇÃO - TILINTAR DE TALHERES E CONVERSAS INDISTINTAS]
Tudo era muito gostoso. Os sabores eram diferentes do usual, mesmo que algumas comidas já fossem conhecidas. O conhecimento milenar dos antepassados da família Chacra definitivamente não se deixou ruir mesmo após a mudança de continente.
E representando a relação dos donos, uma cearense e um libanês, o self-service também contava com comida local. Baião de dois, arroz de cordeiro, peixe à delícia, vatapá de frango e picadinho estavam lado-a-lado das comidas típicas libanesas e serviam de alimento para os que preferiam apenas desfrutar do ambiente.
O cardápio era completo. Isabella, cearense, uma das donas do local junto ao marido, Hicham, libanês, nos teletransportou para o país do Oriente Médio de onde veio a família Chacra.
Sentada à mesa comigo, Isabella conta como a família chegou ao Ceará. Os sogros vieram da região do Alto da Montanha do Líbano, e a história tem mesmo cara de filme antigo. O pai veio primeiro, sozinho, para o Nordeste. Depois voltou ao Líbano por apenas dois meses, tempo suficiente para se apaixonar, casar e retornar trazendo a esposa ao Ceará
O Chacra completa três anos em maio. Começou pequeno, como cafeteria, quase tímido. Mas a comida foi pedindo espaço, empurrada pela curiosidade dos clientes. Isabella percebeu rápido: ninguém estava ali só pelo café. O que atraía eram os pratos árabes e libaneses, especialmente os mais raros. Alguns entravam procurando o cuscuz cearense, talvez por hábito ou conforto, mas acabavam ficando no Oriente Médio.
Isa me conta que sentia falta de um restaurante verdadeiramente libanês em Fortaleza. Em outros lugares, o quibe não convencia, parecia mais era croquete de carne, quem sabe fazer de verdade, sente a diferença. Por isso, decidiu ir com cuidado. Introduziu os temperos aos poucos, sem assustar o paladar cearense, que poderia estranhar tanta coisa de uma vez. Ainda assim, dias depois da visita, o sabor daqueles temperos continua comigo. Um gosto forte, persistente, desses que atravessam oceanos, igual aos insumos do Chacra, que vêm diretamente do Líbano.
Ah, mas restaurante não vive só de comida, não, viu?. Às vezes o salão muda de ritmo e o corpo passa a falar junto com os pratos, há apresentações de dança do ventre, danças típicas do Oriente Médio. No dia anterior, Isa ela me contou, rindo, que até uma cobra esteve naquele mesmo salão que eu estava, convidada improvável para o aniversário de uma cliente, a cobra até dançou nos braços dos clientes. O Chacra, nesses momentos, deixa de ser apenas restaurante e vira travessia.
É que no final das contas, a culinária é só o começo, é um meio de levar o Líbano mais adiante, fazê-lo chegar a outros lugares, a outros cearenses. Um país inteiro atravessando a cidade, prato por prato, emaranhando as histórias em um interlaço.